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Maura Charlotte Vilela
mvilela@jornaldacomunidade.com.br Redação Comunidade VIP
Aos 36 anos, Ronald de Carvalho é um dos nomes mais respeitados do entretenimento em Brasília. Na verdade, já vivia o seu auge profissional aos 28 anos, mesma época em que recebeu a pior, porém a mais transformadora notícia de sua vida. Após peregrinar por consultórios das mais variadas especialidades, ouviu da neurologista Elza Tosta o diagnóstico que, no momento, mais pareceu uma sentença de morte: esclerose múltipla. “Jamais poderia esperar, já que não havia casos na família. Quando comecei a me sentir fraco, cansado e zonzo, atribuí o mal-estar às noites maldormidas, ao excesso de cigarro e café, ao estresse... Foi uma coisa terrível”, relembra. Passado o choque inicial, Ronald concluiu que a única coisa que poderia fazer seria levar sua vida da melhor maneira possível. “É uma doença degenerativa e não tenho como controlá-la, mas optei por não sofrer por antecipação ou ficar prostrado, esperando as coisas piorarem”, revela. No mais, se havia uma razão pela qual pudesse sentir-se motivado, ele tinha. “A Daniele, minha mulher, estava grávida. A vida também estava me dando um presente”, reflete.
Hoje Pietra tem sete anos e é o seu maior orgulho. Ao contrário de tantas crianças que são “poupadas” das verdades da vida, a menina conhece a realidade de seu pai. “Dia desses ela escolheu um livro sobre o corpo humano. Se faz perguntas, nós respondemos. Não alimentamos o drama em casa. Ensinamos a enxergar o diferente com naturalidade. Nem sempre eu fui assim e minha atual condição me deu um novo ângulo de visão. Não é que as pessoas sejam preconceituosas. Elas simplesmente são criadas para não olhar. E quem não olha, não entende, não pensa no assunto. Hoje vejo com clareza como é absurda a situação de uma criança que leva bronca dos pais ao olhar para uma pessoa que usa cadeira de rodas, muleta ou tem outro tipo de deficiência. Inconscientemente, ela vai crescendo fazendo vista grossa para as pessoas ‘diferentes’”, acredita.
Profissão dos sonhos
Nascido no Piauí, filho de um servidor público, Ronald viveu em pequenas cidades nordestinas até mudar-se para a capital federal, aos 12 anos. “Foi uma infância muito feliz”, recorda. Aos 18 anos, descobriu sua vocação para o entretenimento, deixando a escola em segundo plano. “A primeira festa que fiz foi para arrecadar fundos para u
ma gincana do colégio. As pessoas foram desistindo e, no final, ficou tudo por minha conta e de um amigo. Caiu uma chuva torrencial, o som demorou a funcionar, era um problema atrás do outro. Eu era produtor, bilheteiro e porteiro. Foi um caos, mas inesquecível. O nome que escolhemos também caiu com uma luva: Pandemonium”, lembra, às gargalhadas. Quando chegou a época do vestibular, lá estava ele organizando a festa The Day After para marcar o final do concurso. “Também fiz as provas da UnB, mas chutei absolutamente todas as questões. Queria sair cedo para poder panfletar a festa. Ou seja, não ousei nem conferir o resultado da prova, que tinha tudo para ser um desastre. Já a festa foi um sucesso”, garante.
Dali em diante, Ronald entrou com tudo no ramo das festas voltadas para a juventude. “Não havia boates, casas noturnas e opções como hoje. Festinha era só na casa dos amigos”. Nesse ínterim, o empresário curtia o efervescente cenário do rock brasiliense. Em 1993, com o convite para ser sócio da boate Zona Z, seu campo de atuação aumentou. De lá para cá, vieram sucessos como Underground, Frei Caneca Draft, Lakes Steak Bar, Bench e Macadâmia. Atualmente, ele movimenta a cidade com a Pixy, que brinda públicos variados com uma programação eclética. “Axezeiro, romântico, brega, roqueiro, sertanejo... Não gosto de rótulos. O importante é que as pessoas se divirtam”, sentencia.
Como produtor de shows, ele também tem história para contar. Depois de um bem-sucedido espetáculo com o cantor Gabriel, O Pensador em uma casa noturna, ele ganhou confiança para fazer algo um “pouco” maior. “Foi o show do Olodum. Não tinha noção do tamanho que era aquilo. Fiz para bombar, claro, mas ninguém esperava 20 mil pessoas. A multidão derrubou os portões, houve muita confusão, mas o show foi lindo. No final, ficou a lição de que ainda tinha muito a aprender”. E ele aprendeu e conquistou seu lugar. Entre os espetáculos que realizou, vale citar nomes como Asa de Águia, Falamansa, Bruno e Marrone, Chiclete com Banana, Daniela Mercury, Calypso, Jota Quest, Cidade Negra, Molejo, Exaltasamba, Fábio Junior, Padre Fábio e Regis Danese. “Pessoas das mais variadas tribos, dos 20 aos 40 anos, já passaram por alguma coisa que eu fiz. Isso me dá uma satisfação enorme”, revela.
O futuro no presente
![[legenda=Na casa de Ronald e Daniele, o assunto deficiência é tratado com naturalidade. A pequena Pietra fica à vontade para fazer perguntas que são prontamente respondidas. Recentemente, ela pediu aos pais o livro O corpo humano]](/imagem/4f1f25733a5a706d398f2eb887a2c8ad0a56ae9a/320/300/PNUImagem.jpg)
Referência na cidade quando o assunto é acessibilidade, o empresário confessa que se hoje é um apaixonado pelo tema, suas motivações iniciais foram tomadas em causa própria. “Na Pixy, eu precisava de rampas de acesso”, conta ele, que começou a observar que a casa passou a receber cadeirantes após a instalação das rampas. “Você começa a se questionar onde estão as pessoas com deficiências. Elas não saem, não vão a restaurantes? Ora, na maioria das vezes, elas estão em casa, já existem pouquíssimos lugares capazes de recebê-las. As vagas exclusivas para deficientes não são respeitadas como deveriam, há poucos banheiros adaptados, a maioria das calçadas são intransponíveis, isso para dizer o mínimo!”, reclama.
Atualmente, Ronald desenvolve vários projetos reivindicando acessibilidade e cidadania para uma enorme parcela da população que, infelizmente, segue invariavelmente esquecida. “A pessoa com deficiência tem o direito de ir a bares, restaurantes, teatros, boates, shows... Elas têm o direito de se divertir”. O projeto Vem pra vida, vem viver é simples e seu sucesso está diretamente ligado ao envolvimento das pessoas, que são convidadas a fiscalizar espaços públicos e particulares, emitindo multas simbólicas em talões com conteúdo educativo. “É um convite à conscientização e os resultados estão surpreendendo nossas expectativas”, revela Ronald, que em dezembro também realizará uma feira voltada para o tema.
Um novo olhar
![[legenda=A Multa Cidadã, a Notificação Cidadã e a Feira de Acessibilidade são projetos que fazem parte da campanha Vem pra vida, vem viver, lançada pelo empresário]](/imagem/cc28c9d17dd54ae36d1258bcd382c7b1b01fb251/150/200/PNUImagem.jpg)
“Muitas vezes me questionei o porquê de ter feito determinada coisa, ter corrido algum risco. Disse várias vezes que se o tempo voltasse, jamais entraria em tal projeto. Bobagem! Quando olho para trás e vejo com total clareza que absolutamente tudo o que fiz valeu a pena. Nada foi em vão. Há um significado para cada uma delas. Meu sonho é voltar a andar, mas apesa
r das limitações físicas, tenho certeza de que hoje sou um ser humano melhor do que era antes. É impressionante como as grandes dificuldades nos transformam. Acredito que hoje, muito mais do que em qualquer momento, tenha aprendido a tratar cada situação de acordo com o seu tamanho e importância. Coisas que antes pareciam grandes ficaram tão pequenas. Sei o que é um problema de verdade e trabalho pela superação”.
Por Ronald de Carvalho![[legenda=Há três anos o Black XS, de Paco Rabanne, é o seu perfume preferido]](/imagem/00729590a2732599f7e726b024666168810e6e51/150/200/PNUImagem.jpg)
Sonho: voltar a andar
Um exemplo: Mara Gabrilli, deputada estadual de SP, que é paraplégica e um exemplo de luta, otimismo e feminilidade
Projeto: a feira de acessibilidade
Um luxo: comer em bons restaurantes
Hobbie: cinema
Paixões: entretenimento e acessibilidade
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