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Células-tronco na oftalmologia

Pesquisa realizada por um grupo de especialistas brasileiros, sob a liderança do oftalmologista Rubens Siqueira, traz perspectivas otimistas para os portadores de retinose pigmentar, doença genética que causa degeneração da retina e perda gradual da visão

Tamanho da Fonte      Redação Comunidade VIP

[credito=Foto: Divulgação]Uma parceria entre especialistas brasileiros promete ser a “luz no fim do túnel” para quem sofre de retinose pigmentar. Os médicos Rubens Siqueira, oftalmologista do D’Olhos Hospital Dia, de São José do Rio Preto (SP); Júlio César Voltarelli, pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT); e os oftalmologistas Rodrigo Jorge e André Messias, da Universidade de São Paulo (USP), publicaram no Retina Journal, dos Estados Unidos, a primeira pesquisa no mundo que visa utilizar células-tronco para o tratamento da doença. As células em questão são retiradas da medula óssea do próprio paciente, o que evita a rejeição pelo organismo. Em entrevista ao Comunidade VIP, o médico Rubens explica mais detalhadamente sobre esse revolucionário tratamento.

O que são as células-tronco?
As células-tronco são definidas por duas propriedades. Primeiro, elas são capazes de se “autorregenerar”, isto é, podem se dividir e dar origem a mais células-tronco do mesmo tipo. Segundo, podem amadurecer ou se “diferenciar”, gerando células com funções especializadas, como as células da pele, músculos ou sangue. Há vários tipos de células-tronco. Entre elas, estão as embrionárias, que existem apenas nos primeiros estágios de desenvolvimento do feto, e vários tipos de células-tronco de tecidos específicos (chamadas de células-tronco “adultas” ou “somáticas”), encontradas, por exemplo, na medula óssea.


Por que resolveu fazer uma pesquisa com células-tronco para tratar doenças da retina?
As células-tronco já estavam sendo usadas em outras especialidades com resultados animadores, como, por exemplo, no tratamento do diabetes, realizado pelo professor Júlio Voltarelli, da USP de Ribeirão Preto, e para doenças cardíacas, originando um estudo multicêntrico no Brasil patrocinado pelo Ministério da Saúde. Diversos trabalhos científicos demonstraram, por meio de experimentos em animais, que era possível tratar doenças da retina com o uso de células-tronco. Um grupo de pesquisadores do Japão utilizou ratos modificados geneticamente, para terem uma degeneração da retina parecida com a retinose pigmentar. Eles então separaram os ratos em dois grupos: um deles receberia tratamento com as células-tronco aplicadas no olho e o outro não. Os ratos que foram tratados com as células-tronco mantiveram o funcionamento da retina e também as camadas de células. Já no outro grupo, as células atrofiaram, levando os bichos à cegueira.

De onde essas células usadas no estudo são derivadas e onde é feita a coleta?
As células-tronco que estamos usando são derivadas da medula óssea. O local mais usado para a coleta é a crista ilíaca (osso da bacia) e o procedimento é simples, realizado em nível ambulatorial. O hematologista aspira uma pequena quantidade de medula óssea, que imediatamente é levada ao laboratório de terapia celular para a separação das células-tronco.


Quais são as etapas dessa pesquisa?
A terapia celular com células-tronco para tratamento da retinose pigmentar está sendo testada em nosso serviço por meio de uma pesquisa autorizada pelo Comitê Nacional de Ética. Este estudo também foi registrado no órgão americano de controle de pesquisas (clinicaltrial.gov), que registra estudos somente após conseguir uma autorização do Comitê Nacional de Ética do país de origem. Por esse sistema, todos os pesquisadores do mundo têm acesso ao estudo, como ele está sendo realizado e os resultados obtidos. Muitos países, como os Estados Unidos, permitem a publicação ou apresentação em congressos de pesquisa somente após o registro neste órgão. Realizamos a primeira fase do estudo com cinco pacientes e a coleta da medula óssea foi feita no período da manhã. O material foi levado para o laboratório de terapia celular do hemocentro da USP de Ribeirão Preto, onde as células-tronco foram separadas e, no mesmo dia, aplicadas no olho sob anestesia local. Foi demonstrado ser um procedimento seguro e viável. Observamos também repostas positivas com relação ao eletrorretinograma e campo visual. Recebemos, recentemente, a autorização para iniciarmos a segunda fase do estudo, que será feita inicialmente em 20 pacientes.


Quais os principais benefícios proporcionados por esse tratamento?
A degeneração de células neurais da retina é a marca de doenças difusas, como a degeneração macular relacionada com a idade (DMRI) e a retinose pigmentar. A medula óssea é o tecido ideal para estudar as células-tronco, devido à sua acessibilidade. Por conta dessas características e a experiência do transplante de medula no tratamento de doenças hematológicas, as células-tronco derivadas desse tecido têm se tornado, sem dúvida, a maior ferramenta na medicina regenerativa. Essas células podem ser capazes de restaurar a função da retina repondo as células perdidas. Há, ainda, o efeito parácrino, ou seja, as células-tronco produzem substâncias específicas que melhoram o funcionamento e sobrevivência das células da retina.


Em quais outras doenças da retina essa terapia poderia ser utilizada?
Estamos utilizando para doença degenerativa da retina, como retinose pigmentar, e já recebemos autorização para iniciarmos os testes na degeneração macular relacionada com a idade. Outras doenças poderiam ser tratadas, como a retinopatia diabética e doenças vasculares da retina, além de inflamação ocular, como uveíte. Temos um projeto à espera de autorização pelo Comitê Nacional de Ética, para iniciarmos a pesquisa nesses pacientes. Vale lembrar que casos de degeneração hereditária da retina são muito difíceis de tratar por ser uma anormalidade genética, e necessitamos de uma avaliação a longo prazo para termos certeza do benefício. Primeiramente, queremos impedir que a doença piore, pois, até agora, os pacientes não têm esta opção. Ao confirmarem o diagnóstico, tanto eles quanto os familiares sofrem, pois descobrem que a doença não tem cura e a visão vai se perdendo progressivamente. Portanto, se conseguirmos evitar que isto ocorra,  já será uma grande vitória.

Quais seriam os possíveis empecilhos?
Como todas as pesquisas clínicas, temos que seguir critérios de inclusão e exclusão dos candidatos a voluntários, como, por exemplo, ser maior de 18 anos, perfil psicológico, entre outras características clínicas. Obviamente, após comprovação da eficácia do tratamento, ele poderá ser
realizado em todas as idades.

Há algum risco nesse tipo de terapia?
A aplicação intraocular de qualquer substância possui risco de infecção (aproximadamente 0,05%), e as células-tronco não estão fora disso. A formação de tecidos anormais e tumores não foram descritos com células-tronco derivadas da medula óssea, mas sim, nas células-tronco embrionárias.

Colaborou a estagiária Lorena Castro


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